Especialistas discutem rastreamento como forma de planejar ações de combate à COVID-19

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Sem vacina disponível, nem um tratamento bem estabelecido para a COVID-19, surge o consenso em saúde pública da necessidade de testar, rastrear e isolar indivíduos infectados como forma de diminuir a propagação do vírus e, assim, reabrir gradualmente a economia com alguma segurança. Nessa seara, tecnologias de rastreamento de contágio despontam como estratégias importantes para o enfrentamento da pandemia.

“Nas atuais condições, torna-se extremamente importante ouvir especialistas de diferentes países, sobretudo para compreender como o comportamento das pessoas pode moldar o avanço da pandemia. Isso se torna necessário mesmo com a corrida para o desenvolvimento de novas drogas e vacinas para a COVID-19, que, na melhor das possibilidades, ainda precisarão de meses até estarem disponíveis”, disse Luiz Eugenio Mello, diretor científico da FAPESP, na abertura do seminário on-line “Contact tracing and lockdown easing plan: Effectiveness X Limitations”, o 3º FAPESP COVID-19 Research Webinars, realizado em 1º de julho.

No debate, cientistas da Nigéria, México, Estados Unidos e Brasil apresentaram os principais desafios do uso de tecnologias para o rastreamento de movimentação da população e para o monitoramento de pessoas que tiveram contato com infectados.

No Brasil, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a empresa InLoco, utilizaram dados de mobilidade (fornecidos voluntariamente por usuários de celular) para mapear pontos críticos de transmissão de COVID-19 e também analisar os efeitos do isolamento social.

“Começamos a acompanhar a movimentação já no carnaval. Com os dados de celular foi possível notar mudanças de padrão no início da quarentena, como resultado do fechamento de escolas e aulas nas universidades. O monitoramento também permitiu calcular outro dado importante: a porcentagem de isolamento social necessária para prevenir uma curva de contágio muito acelerada e o eventual colapso do sistema de saúde”, contou Helder Nakaya, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Em outro estudo, realizado em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os pesquisadores da USP conseguiram verificar como a epidemia se espalhou ao longo do tempo pelo Estado de São Paulo. “O uso desses dados e de outras informações pode facilitar o desenvolvimento de um plano, não apenas de lockdown, mas também para elaborar estratégias direcionadas à reabertura”, disse.

Para Leany Lemos, que foi secretária de planejamento do Estado do Rio Grande do Sul e coordenou o plano de distanciamento do Estado gaúcho, além do monitoramento e de testes (que não estão amplamente disponibilizados no Brasil), o enfrentamento exige comunicação com os diversos setores da sociedade.

“Já em março instituímos seis protocolos baseados em dados que iam além do número de mortos e contaminados. Contamos com a participação da indústria e de empresários nessa iniciativa. Era preciso que todos entendessem a necessidade da quarentena. Também regionalizamos o plano de ação, criando 30 regiões de saúde no Estado de acordo com a capacidade de atendimento hospitalar e número de UTIs [unidades de terapia intensiva] e comunicamos isso à população”, disse.

Na cidade do México, pesquisadores observaram o aumento de movimentação em duas datas festivas: o dia das crianças (comemorado em abril) e o dia das mães (no segundo domingo de maio). De acordo com Jorge Velasco Hernandez, do Instituto de Matemática da Universidad Nacional Autónoma de México, a maior movimentação nessas datas alterou a curva de contágio e, por consequência, os planos de reabertura da economia.

“Todos sabem da importância de coordenar a quarentena para diminuir a movimentação das pessoas e, consequentemente, o contágio. No entanto, esses dias de comemorações foram completamente fora do padrão esperado, o que causou o adiamento do plano de reabertura. As pessoas saíram mais de suas casas para comprar presentes, entregar pinhatas para crianças e visitar suas mães. Verificou-se que esses eventos atípicos devem ser levados em conta nos planejamentos dos governos”, afirmou Velasco.

Na Nigéria, dados cedidos por usuários de celular também serviram para monitorar a movimentação da população durante a epidemia. No entanto, de acordo com Iniobong Ekong, diretor da Secretaria de Saúde e Recursos Humanos, questões ligadas à privacidade da população, que precisam ser respeitadas, vêm dificultando a implementação de um aplicativo de rastreamento de contatos para mapear a COVID-19 no país.

“Já é consenso global que monitorar o contato das pessoas é uma maneira eficiente de conter os avanços do novo coronavírus. Mas na Nigéria também não temos condições de testar toda a população e, assim, não conseguimos rastrear pessoas que entram em contato com infectados. Por isso, desenvolvemos estratégias no intuito de identificar hotspots. No entanto, é preciso monitorar a movimentação sem infringir a privacidade das pessoas”, disse Ekong.

Para Pratik Sinha, professor da Washington University St. Louis, nos Estados Unidos, as grandes empresas de tecnologia, como Google e Apple, por exemplo, podem ajudar a fornecer soluções inovadoras para enfrentar os desafios do rastreamento de contatos. “O fato é que ainda não temos a adesão necessária da população nem a infraestrutura para fazer esse rastreamento. A minha pergunta é: como as grandes empresas de tecnologia poderiam ajudar fornecendo soluções inovadoras e quais os riscos de segurança digital e privacidade para os envolvidos?”

De acordo com especialistas, no entanto, o rastreamento sozinho não evitaria a necessidade de isolamento social. “Em termos tecnológicos é perfeitamente possível rastrear todos os casos da doença. No entanto, fora a questão de privacidade, acredito que já seja para implantar essas tecnologias com o objetivo de evitar o isolamento social. Atualmente, elas devem ser vistas como uma ferramenta importante para o planejamento”, disse Nakaya.

Sinha concorda. “No estágio em que estamos certamente é tarde para que essas estratégias tenham abordagem do ponto de vista individual. Não temos testes suficientes para monitorar a população. O que precisamos agora é definitivamente evitar aglomerações, não ir a shoppings, por exemplo”, disse.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.